Entendendo o gerundismo

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Muito tem sido dito sobre o uso e abuso do gerundismo nos últimos meses, mormente por causa da indesculpável iniciativa do governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal de, através de decreto, confundi-lo com o gerúndio e botar lenha na fogueira das asneiras lingüísticas que de tempos em tempos toma conta do Brasil.

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Para início de conversa, não dá para condenar o uso da locução sem ver seu contexto. Daí a cautela em relação ao propósito e à motivação de comunidades no Orkut, blogs e campanhas antigerundismo que pipocam por aí. Além disso, a construção ‘vou estar + gerúndio’ é aceitável e legítima quando ela expressa uma ação em curso ou simultânea a outra ou exprime a idéia de progressão indefinida. O problema se dá, porém, quando o seu uso confere imprecisão às informações ofertadas, estabelece descompromisso explícito ou a idéia de promessa vã, como tem sido o caso que acomete os gerundistas de plantão, especialmente quem lida com vendas no país.

O gerúndio, pois, assim como o infinitivo e o particípio, é uma forma nominal do verbo porque exerce também a função de nome. Ele é a desinência –ndo no português (como em estudando, lendo e traduzindo). Já na língua inglesa ele é a terminação -ing, que exige a presença de alguma forma do verbo to be no presente, passado, infinitivo sem o to ou particípio – am/are/is, was/were, be ou been. Para complicar ainda mais, o suposto gerúndio inglês, acredite ou não, nem sempre continua gerúndio quando traduzido para o português, como é o caso de ‘smoking’ e ‘fishing’ ou ‘interesting’ e ‘breathtaking’, que exercem a função de substantivo e adjetivo, respectivamente. O gerundismo à brasileira, ao contrário, é considerado uma construção de gosto duvidoso, beira o grotesco e tem nome próprio: endorréia, ou ‘gerúndio vicioso’, prática comum entre operadores de call centers ou telemarketing, desavisados ou simples imitadores.

A versão de que tal construção é uma tradução malfeita do future continuous explica apenas parte da história. Como o futuro pode ser expresso de várias formas em inglês (simple present, simple future, present continuous, immediate future, future perfect e future perfect continuous), o que verdadeiramente explica esse fenômeno é a arraigada mania do brasileiro de traduzir às pressas, pouco importando a lógica ou a historicidade que por vezes afasta ou aproxima os idiomas.

Comparativamente, quando se quer dizer ‘Eu estou lendo’ basta dizer/escrever ‘I am reading’ em inglês – dando a entender algo que efetivamente está acontecendo e não simplesmente acontece, habitualmente ou não. Já para expressar ações habituais, ações ou estados permanentes, verdades imutáveis ou ações num futuro planejado, poderíamos simplesmente dizer ‘I read (whenever I can)’, ou seja, ‘Leio (sempre que posso)’. A construção equivalente para ‘Eu estarei estudando’ é ‘I will be studying’, ao passo que ‘I am going to be studying’ é ‘Eu vou estar estudando’ – onde identificamos o nosso big problem. Trocando em miúdos, ‘I will be studying’ indica ações que supostamente estarão em andamento num dado momento no futuro, enquanto que ‘I am going to be studying’ prevê ações que mais do que provavelmente estarão ocorrendo num determinado momento no futuro, já que foram planejadas. O Google está repleto de exemplos que corroboram a ocorrência das duas construções…

Poucos livros didáticos brasileiros, porém, mencionam a existência de construções verbais mais exigentes como o future perfect continuous (will have been doing sth ou be going to have been doing sth), que indica a continuidade de algo até um determinado momento no futuro, geralmente através do uso de time clauses. Com a globalização, alguns dos requisitos exigidos hoje em dia pelas grandes corporações são a clareza e a fluência verbal em dois ou três idiomas, além da boa capacidade de comunicação e adaptação a novas culturas. Num mundo extremamente exigente, o limite lingüístico e cultural, em última análise, é imposto pelo bom senso. Eis, portanto, um artigo de luxo…

(*) Assessor lingüístico e autor dos livros Inglês de Fachada e Inglês no A Tribuna - jerrymill@jerrymill.com.br

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Reforma ortográfica

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O Brasil já está preparado para enfrentar algumas mudanças na língua portuguesa, mesmo sem saber quando ela vai acontecer

A reforma ortográfica foi mais uma vez adiada. A decisão da Colip - Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa - foi tomada na última sexta-feira. Apesar disso, o MEC - Ministério da Educação - anunciou no início do mês que a licitação dos livros didáticos para a nova ortografia (que deveria entrar em vigor no início de 2008) já está preparada.

O assunto pode não ser o dos mais relevantes, já que outros temas políticos têm sido alvos da imprensa, porém, a sociedade precisa de uma satisfação e mais do que isso, tem de saber o que muda e o que continua igual nas regras da língua caso a idéia seja retomada.

Para esclarecer a questão, a reportagem do Guia da Semana resolveu colocar a mão na massa. A seguir, você vai entender porque essas mudanças vão ocorrer num futuro breve, a quem ela beneficia ou prejudica e como as escolas estão se preparando para essa readaptação, que apesar de atingir apenas cerca de 2% do idioma pode fazer a diferença durante uma prova, concurso ou vestibular.

A língua
O português é falado em oito países: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal. A língua tem duas grafias oficiais, o que acaba dificultando seu estabelecimento como um dos idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU). E por isso, a necessidade de padronizá-la. A ortografia-padrão tem como objetivo facilitar o intercâmbio cultural entre essas nações. Segundo o MEC, com as normas unificadas o Brasil sairia do isolamento lingüístico, já que todos os outros da CPLP- Comunidade de Países da Língua Portuguesa- seguem o português de Portugal, dessa forma os livros brasileiros têm de ser traduzidos nesses países.

O acordo
A proposta para o acordo ortográfico foi apresentada para a CPLP em 1990 por Antônio Houaiss (1915-1999), um dos maiores estudiosos da língua. Entretanto, para ela ser aprovada era necessário que pelo menos três dos oito países lusófonos ratificassem o tal acordo. E até hoje, Brasil, São Tomé e Príncipe e Timor Leste já o fizeram. Logo, as mudanças poderiam entrar em vigor a qualquer momento. Porém, o adiamento da reforma segundo o presidente da Colip Godofredo de Oliveira Neto aconteceu porque Portugal não aceitou as novas regras da ortografia Por enquanto o acordo está suspenso . O Brasil deve esperar que o país aceite as mudanças. A verdade é que diferente do Brasil, Portugal não demonstrou nem uma vontade política e não está nem um pouco preocupado com isso nesse momento.

As mudanças na sala de aula
As novas regras da língua portuguesa quando acontecerem, serão aplicadas apenas na ortografia, as pronúncias típicas de cada país permanecem iguais. Para as escolas, não haverá uma divulgação oficial do início do acordo explica o diretor de conteúdo do colégio Pueri Domus Lilio Paoliello. Ele pode entrar em vigor em cada país, desde que três dos países de língua portuguesa o tenham aceito. Isso já aconteceu, mas como Portugal ainda não tomou posição, Brasil fica em uma posição não confortável para colocá-lo em ação. É mais uma questão diplomática do que ligada à educação.

De qualquer forma, as escolas particulares também estão preparadas para quando isso acontecer. O Pueri Domus é um exemplo: A partir do momento da opção do governo brasileiro, começaremos a redigir nossos textos do cotidiano e aqueles divulgados pela internet já conforme o acordo e toda vez que uma palavra com nova escrita for trabalhada em sala de aula, os professores chamarão a atenção dos alunos. Porém, não deve haver uma ´caça às bruxas´ ou uma ´cruzada da nova escrita´ para que o trabalho não tenha efeito contrário, finaliza Lilio.

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